A HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA DAS CRIANÇAS NAS EMBARCAÇÕES PORTUGUESAS DO SÉCULO XVI

Pra variar, preparando um material para um trabalho me deparo com materiais novos e que sempre me instigam. Pois para mim o mundo ainda é muito novo e sempre há algo a investigar.

Foi numa dessas que me deparei com esse material e vale a pena deixar registrado.India_2

Vejamos…

Esta é uma resenha de um tema do livro: História das crianças no Brasil.

O texto de Fábio Pestana Ramos sobre as crianças do período das grandes navegações portuguesas nos remete a triste realidade que essas crianças sofreram além do desapego dos adultos causado pelo grande nível de mortalidade infantil desde o período medieval e talvez agravada após a devastação da peste negra as crianças que eram alçadas nessa aventura por muitas vezes desafortunada morriam pela árdua viagem através do atlântico rumo ao Brasil ou as Índias Orientais, sofriam com a pirataria que ao captura-las eram mantidas como escravos, prostituídas ou mortas, mas a violência sexual poderia vir de seus próprios parentes ou conterrâneos. A pedofilia era corriqueira nas embarcações, principalmente nessa época de grande falta de mulheres que às vezes eram proibidas de tripular uma embarcação, nessas situações as crianças saiam de Portugal acompanhadas de algum parente ou como Grumetes ou como Pagens, em todo o momento os acompanhantes deviam vigiá-las para não serem violadas.

Os grumetes eram marinheiros do mais baixo escalão que formava parte da tripulação enviadas paras as índias Orientais ou para o Brasil, essa classe era formada na sua grande parte por crianças entre 9 e 16 anos, geralmente meninos filhos de pedintes, de pessoas muito pobres das áreas urbanas ou órfãos. Aqueles que possuíam família geravam soldo a sua família, a mortalidade dos navios era grande, mas as crianças não tinham escolha e as suas chances de morrer por falta de alimentação ou por doença eram extremamente grandes tanto em terra como no mar, pois a expectativas de vida das crianças portuguesas entre os séculos XIV e XVIII era por volta dos 14 anos, as crianças que trabalhavam na agricultura eram poupados do serviço nas embarcações lusitanas.

Tudo que possamos pensar em termos de direitos das crianças atualmente com certeza eram violados neste período da nossa história, o trabalho infantil, a violência física, violência sexual e psicológica em todos os sentidos, pois além dos maus tratos muitas crianças judias eram raptadas para compor os grumetes e controlar a população de judeus em Portugal. Aos grumetes cabiam os mais perigosos trabalhos em uma embarcação e apesar de responderem ao Guardião (cargo ocupado geralmente por ex-marinheiros) sofriam com os abusos de todas as outras classes da tripulação. Essas crianças marinheiras apesar de serem muitas vezes tratadas como animais ou objeto de trabalho e uso, formavam uma grande parte da tripulação como em meados do século XVIII o numero dessas crianças chegou a ser equivalente ao dos adultos.

As embarcações possuíam pouco espaço, os donos dos navios se utilizavam do espaço para as mercadorias e os grumetes se acomodavam ao ar livre, expostos a chuva, sol e frio, sua alimentação era péssima como a da maioria dos tripulantes com biscoitos a mofar, água pútrida, carne salgada em estado de decomposição e não recebiam a porção de vinho como os marujos adultos. Os marinheiros podiam pescar para compor a alimentação, mas as crianças tinham seu tempo exaurido pelos trabalhos contínuos e exaustivos, sua saúde era debilitada e a presença de médicos era rara, na maioria das vezes que eram submetidos a tratamentos esse tratamento era a sangria, praticada desde o medievo, se não deixavam mais debilitados os matavam com essa prática. Apesar dos grumetes serem a mais baixa classe da tripulação, costumavam desempenhar tarefas de todos os ofícios dentro das embarcações em alguns casos aplicaram sangrias como um médico, pilotaram os navios entre outras grandes ações demonstrando sua importância e mesmo com colossais dificuldades e recebendo a metade do soldo de um marinheiro adulto em raros casos acendiam na Marinha Portuguesa.

Ao contrario dos grumetes os pagens (crianças de mesma idade dos grumetes) possuíam melhor condição de vida, pois eles serviam e eram acompanhantes dos nobres e oficiais nas embarcações. Possuíam um soldo menor que do adulto e maior que do grumete, mas algumas vezes recebiam gratificações e mantinham um maior contato com os melhores alimentos das naus possibilitando uma melhor qualidade de vida, os nobres levavam consigo cerca de 5 pagens e em alguns casos os pagens eram escravos adultos, as crianças escolhidas para serem pagens em uma embarcação rumo as Índias Orientais ou ao Novo Mundo eram de famílias pobres, de setores médio urbano, protegidos pela nobreza ou da baixa nobreza. Ser um pagen significava ter melhores chances para aprender um oficio ou seguir carreira na Marinha Portuguesa com maiores chances de ascensão.

Alguns oficiais levavam seus filhos como pagens ou como acompanhantes para aprender algum oficio, os acompanhantes não possuíam deveres como os pagens ou grumetes além de possuírem a liberdade de transitar pela embarcação e outras vantagens adquiridas por meio de seus parentes, mas não recebiam soldo. Mesmo os pagens e as crianças que entravam nessas viagens não escapavam dos maus tratos ou do perigo da pedofilia que rondava as naus portuguesas, tais atos de pedofilia eram corriqueiro também dentro na categoria dos pagens que eram abusados pelos oficiais, marinheiros e até mesmo por seus parentes. O fato dos altos escalões também praticar as atrocidade do abuso sexual retirava as chances das crianças acompanhantes, grumetes ou pagens de recorrer a alguém, por vezes as crianças acabavam a se prostituir para ganhar alguma proteção de um adulto ou oficial.

Enquanto o número de meninos com idade entre 12 e 16 anos era grande as meninas embarcavam nas frotas portuguesas em menor quantidade, mas na sua maioria vindas também da mesma origem pobre dos orfanatos e com idades entre 14 e 17 anos eram as órfãs “Del Rei”. A grande preferência era por meninas com idade abaixo dos 17 anos, a preferência se justificava pelo fato da coroa colocar prostitutas nos orfanatos para livrar Portugal das pecadoras, então as mulheres de 18 a 30 anos provavelmente seriam prostitutas. As viagens ao Brasil levavam cerca de 2 a 3 meninas para casarem com membros da baixa nobreza e o maior fluxo de meninas e mulheres era para as Índias Orientais, pois no Brasil o contato com os nativos era grande e a coroa permitia o relacionamento de homens brancos com as nativas.

As meninas passavam pelas mesmas provações dos outros tripulantes como a comida e a água em péssimo estado, geral mente elas eram confiadas a um religioso para manter-las seguras e não serem estupradas e se eram raramente se conheciam o fato que as desvalorizavam, assim diminuindo suas chances para o matrimonio, por isso os religiosos não se agradavam com fato de mulheres nos navios. A sociedade patriarcal portuguesa chegava a considerar órfãs as meninas órfãs de pai e retirando as meninas de suas famílias para suprir a falta de mulheres brancas nas índias, outro caso de seqüestro a medida tomada pela coroa de colocar meninas ciganas em orfanatos que seriam enviadas par as índias e assim controlavam e tentavam diminuir a população de ciganos que em sua grande maioria se recusavam a converter se na fé cristã.

Aos acompanhantes crianças era remetido a mesma porção de ração dos grumetes, mas aqueles que eram pertencentes a nobreza possuíam contato com alimentação mais saudável fornecida pelo mercado negro de alimentos dentro da própria embarcação, os alimentos que eram guarnecidos para os doentes era desviado. Apesar de não possuírem obrigações como os tripulantes, esses passageiros, principalmente os pobres, passavam os mesmos riscos da violência sexual na maioria das vezes por parte dos marinheiros que na grande maioria era formada por bandido, ladrões e assassinos dignos da fogueira da inquisição, mas eram absolvidos para trabalhar nas aventuras oceânicas.

No período das grandes navegações lusitanas o mar do atlântico foi tomado por um pequeno exercito infantil que formavam cerca de 5% da tripulação total em uma nau, por isso os poucos registros, mas serviram para inúmeras ações que variavam de meros serventes dos nobres, dos marinheiros ou como objeto sexual. As meninas, órfãs do rei, tinham como missão casarem com portugueses que viviam nas índias onde a mulher branca era escassa, para o Brasil essa leva de meninas, mesmo em pequena quantidade, era destinada aos membros da baixa nobreza. Apesar de a situação ser catastrófica no período entre século XVI e XVIII não podemos dizer que não havia sentimentos entre as crianças e os adultos, mas a fragilidade das crianças era tanta que morriam em grande quantidade por falta de alimentação, por sarampo ou outra doença, assim criava uma esperança muito pequena nas chances dessas crianças sobreviverem até chegar a idade adulta ou morreriam nos primeiros meses de vida. Se pensarmos que os pais dessas crianças não sofriam com a perda delas estaremos sendo muito sensacionalistas e rebaixando nossa condição abaixo dos “animais”, sendo que muitos animais ditos irracionais arriscam suas vidas para tentar manter seus filhotes vivos, talvez para as pessoas do período da epopéia marítima o alistamento de seus filhos na marinha portuguesa seria a única chance a dar a essas crianças e de arrecadar algum recurso para garantir a sobrevivência do resto da família que ficava em Portugal.

BIBLIOGRAFIA

RAMOS, Fábio Pestana. A história trágico-marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XV. In: PRIORE, Mary Del. História das crianças no Brasil. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2004.

Fonte:  http://lehistoire.blogspot.com.br/2009/09/historia-tragico-maritima-das-criancas.html

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